Nada se copia, tudo se cria

Quando criar nada mais é do que prestar atenção à poesia do que acontece à nossa volta

Fazer brigadeiro ainda era um hobby.  Acordei mais cedo naquele sábado para preparar sem pressa o doce que seria o presente de aniversário de um colega da redação. Fiz uma receita tradicional, usando uma lata de leite condensado, uma colher das de sopa de manteiga e um ingrediente que até então ninguém tinha coragem de botar na panela – uma barra de chocolate ao leite de boa qualidade. Reservei um pouco desse mesmo chocolate para passar nos brigadeiros, fiz bolinhas do mesmo tamanho e coloquei em forminhas duplas, para não abrir e ficar com cara de fim de festa. Continuar lendo “Nada se copia, tudo se cria”

Ovo no brigadeiro?

Os primeiros brigadeiros da história levavam uma ou mais gemas na receita, entenda aqui por que botaram ovo no nosso doce favorito

Você já deve ter ouvido dizer que a avó de alguém faz brigadeiro com gema de ovo e que esse seria o segredo bem guardado do doce mais amado do Brasil. Minha avó acreditava tanto nisso que botava logo três gemas em uma única receita brigadeiro – haja colesterol.  E elas não podiam ser de outro lugar, senão do seu próprio galinheiro, ou seja, genuinamente caipiras. Continuar lendo “Ovo no brigadeiro?”

Desencontros virtuais

Sempre que me dá vontade de encontrar alguém pessoalmente me contenho preparando um brigadeiro

O mundo nunca teve tanta gente e uma comunicação tão rápida, no entanto, somos sete bilhões de pessoas que pouco se falam. Repare que ninguém mais se telefona, tudo agora é por “zap”. Quer terminar um casamento de 10 anos? Zap. Demitir aquele funcionário que trabalhou uma encarnação na empresa? Zap. Dizer que alguém morreu? Zap. Imagine que esses dias me peguei dando conselhos sentimentais e receita de bolo pelo zap. Logo eu, que me orgulho de ser da resistência analógica e mantenho em casa um telefone enorme com disco, fio e tudo mais. Continuar lendo “Desencontros virtuais”

O erro que virou acerto

Quando perder o ponto do brigadeiro nos faz achar outra receita

O telefone tocou. Era a tia Ivone cheia de assunto, para comentar o último capítulo da novela. Atendi na cozinha, mexendo, desajeitada, uma receita de brigadeiro tradicional, que seria meu presente de aniversário para uma colega da redação. Continuar lendo “O erro que virou acerto”

A vida é curta, pra se contentar com gelatina colorida

Brigadeiro em casa não era sobremesa, tive que usar a imaginação para transformá-lo em uma

Sempre me incomodou o fato de brigadeiro não ser sobremesa e eu só poder comer meu doce favorito em festas de aniversário. A solução foi inventar formas criativas de servi-lo, para convencer meus pais que ele podia ser mais elegante que a gelatina colorida do verso da lata de leite condensado, que reinava soberana na geladeira de casa. Continuar lendo “A vida é curta, pra se contentar com gelatina colorida”

Longa vida ao leite condensado

O brigadeiro é mesmo um doce de sorte. Ele só existe graças ao leite condensado, que virou ingrediente da culinária por obra do acaso.

Acredite, antes de se tornar essa guloseima irresistível que é, o leite condensado era alimento sério: foi leite longa vida – o primeiro da história. Era um leite concentrado já adoçado (para ser diluído em água), criado para suprir a escassez de leite fresco durante alguns períodos da história. Inventado na metade do século XIX, a doce invenção tinha a missão de tornar o leite menos perecível, armazenável. Continuar lendo “Longa vida ao leite condensado”

Em busca do chocolate perdido

Fui criança nos anos 80 e naquela década o chocolate tinha uma nota sublime: de infância.

Cresci uma chocólatra nostálgica, sempre em busca daquele paladar perdido. Sou tão saudosa daqueles tempos, que até coleciono, secretamente, embalagens de chocolates antigos.

Tudo começou numa tarde de sol, sem qualquer previsão de chuva, quando descobri meia dúzia de guarda-chuvas de chocolate – lembra dele? numa banca de doces no ponto de ônibus. A polícia passou recolhendo tudo e por pouco não me leva junto. A boa notícia é que deu tempo de colocar meu achado na bolsa e minha ficha continua limpa. Continuar lendo “Em busca do chocolate perdido”