Profissão-brigadeiro

Fiz meu primeiro brigadeiro aos 6 anos e desde então dedico a ele minhas panelas, pesquisas e calorias

Por Juliana Motter, doceira da Maria Brigadeiro

Será que é a gente começa um negócio ou é o negócio que começa na gente? Nunca planejei abrir uma loja especializada em brigadeiro. Hoje, recontando a história, entendo que meu “plano de negócios” começou lá atrás, no colo da minha mãe, quando provei brigadeiro pela primeira vez. Senti uma alegria enorme, que expressei num sorriso sem dentes. Aos quatro anos, quando passei a alcançar a mesa de doces com as minhas próprias pernas, só tinha braços para o brigadeiro. E finalmente aos 6 anos fiz o primeiro brigadeiro da minha vida, com a ajuda experiente da minha avó Ignês, que era doceira familiar. Mais do que a receita, aprendi com ela o que viria a ser mais tarde o princípio do brigadeiro gourmet: o respeito pelo doce.

Naquela perfumada cozinha de interior, o brigadeiro era feito com leite condensado caseiro, manteiga  gorda de fazenda e raspas de chocolate puro no lugar do granulado industrial. O doce saía da panela pouco antes do parabéns, e não um dia antes da festa – fazendo escala de 24 horas em cima da geladeira, como sempre acontecia na minha casa. E na hora de enrolar, vovó selecionava os netos mais coordenados, de maternal feito. Se a bolinha não ficasse redondinha e do mesmo tamanho das outras, tinha que refazer até acertar. Brigadeiro “careca” também não passava de jeito nenhum. As raspas de chocolate, muito bem tiradas, tinham que cobrir toda a circunferência do doce. Depois de tanto trabalho, era de se esperar que os brigadeiros não fossem servidos em modestas bandejas de papelão. Minha avó fazia questão de dar a eles a dignidade de serem servidos em elegantes pratos de porcelana,  e lustrosas bandejas de prata, como os doces de gente grande.

Cresci com esse doce ensinamento. Meu passatempo preferido – depois do Atari – era fazer brigadeiro. O hábito incomum de levar meus próprios brigadeiros nas festas da escola, logo rendeu um apelido jocoso: “Maria Brigadeiro” A gracinha – que hoje certamente seria interpretada como bullyng – teve efeito contrário, serviu de incentivo para seguir adiante nos meus experimentos. Comecei, aos 10, um caderno de receitas só de brigadeiro: com chocolate branco, coberto com caramelo, recheado com pedacinhos de chocolate. E assim, intuitivamente, fui criando novas versões do doce, adicionando ingredientes que eu gostava.  Aos 15 anos, meu caderno já contava com mais de 30 receitas inéditas de brigadeiro, que eu fazia, orgulhosa, para dar de presente para os amigos.

O tempo passou e chegou a hora de prestar vestibular. Não havia, na época, faculdade de gastronomia (muito menos de brigadeiro) e optei por jornalismo, seguindo uma tradição de família. Na redação, o brigadeiro continuou sendo meu assunto favorito e sempre dava um jeito de enfiltrá-lo numa matéria aqui e ali.  Chegaram, finalmente, os cursos superiores de gastronomia, e fui fazer um deles com o objetivo de escrever melhor sobre o tema, que fazia parte da minha editoria.

Cheguei nas aulas de confeitaria ansiosa por novas técnicas de preparo de brigadeiro e quando vi que não havia no programa qualquer referência ao doce (que é, afinal, o mais popular do Brasil), questionei a professora. O que ouvi foi que não havia nada para aprender sobre brigadeiro. No entanto, passamos semanas penando para acertar o ponto (e a pronúncia) de um tal de macaron, que ninguém fazia ideia do que era. Tive então a certeza de que o brigadeiro era um doce subvalorizado. Arregacei as mangas e botei a panela no fogo, convencida a provar o contrário. Adaptei as técnicas clássicas de confeitaria  às minhas velhas receitas (usei aquela aula de macaron, por exemplo, para criar um brigadeiro de amêndoa), juntei na massa tudo o que aprendi com a minha avó e o resultado foi um brigadeiro muito mais gostoso, que chamei de “brigadeiro gourmet”, para diferenciar daquela versão infantil que todo mundo conhecia.

Até aqui, não tinha associado brigadeiro a negócio. A descoberta aconteceu numa festa de amigos. Levei brigadeiros de vários sabores (até então só existia o tradicional) e arrumei eles nos pratos de porcelana herdados da minha avó. Fiquei sentada num canto, observando a reação de quem se aproximava da mesa de doces. Não tinha quem não se surpreendesse. Que felicidade saber que eu não era mais a única  a enxergar no brigadeiro sua dignidade gastronômica.

Quando as pessoas souberam que eu era a autora dos brigadeiros diferentes, perguntavam se eu fazia para vender. Respondi repetidas vezes que “não”, que era jornalista. Três taças de vinho depois e uma década de certeza de que estava na profissão errada, disse que “sim”, que fazia para vender e que tinha um ateliê de brigadeiro gourmet”. Não tinha.

No dia seguinte, lá estava eu na redação, fechando o manual de “como conquistar o homem ideal em 30 passos” quando o telefone solidariamente tocou. Era uma convidada da festa da noite anterior fazendo a primeira encomenda oficial: mil brigadeiros. Minha primeira reação foi pensar em desfazer o mal entendido, dizer que eu era jornalista e que não havia um ateliê de brigadeiro gourmet com endereço fora da minha imaginação. Faltaram as palavras  e não houve alternativa senão aceitar o desafio.

Passei a noite em claro fazendo brigadeiro e no dia do evento uma amiga distribuiu um monte de cartões com o meu apelido: “Maria Brigadeiro”, e o número do meu celular . A brincadeira, no entanto, ficou séria. No dia seguinte meu telefone não parou de tocar. Tarde demais para voltar atrás. Depois de três meses insone, fazendo brigadeiro à noite e trabalhando na redação de dia, tive que escolher um caminho. Segui com os brigadeiros, e sob a desconfiança dos que subestimavam o doce, abri, em 2007, a Maria Brigadeiro, primeira loja do Brasil especializada em brigadeiro. Aos 30 anos finalmente entendi que a minha contribuição ao doce seria bem mais genuína do que sair prometendo homem ideal por aí, e detalhe: sem sequer ter namorado.

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15 comentários em “Profissão-brigadeiro

  1. fazer o que se gosta não é apenas escolher uma profissão exercê-lá excelentemente, é deixar a marca no mundo do que se faz com amor, essa história é incrível, uma ótima inspiração para um trabalho cinematográfico.

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  2. Juliana mesmo sem conhecê-la pessoalmente tenho uma enorme admiração pela sua pessoa , Seus brigadeiros são lindos e sem dúvida deliciosos , quero ter meu ateliê futuramente. E a maria brigadeiro com certeza será uma referência de qualidade , sinto afeto pelo seu trabalho , cada detalhe , cada cuidado que você tem , tudo isso me faz acreditar que sim é possível. Tu és maravilhosa , continue fazendo brigadeiros amorosos!!! P.s : Eu AINDA não provei , todo sucesso pra você , pra mim e pra todos (as) que fazem amior em forma de doce!

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  3. Juliana, só tenho que te agradecer! Obrigada por ser essa referência maravilhosa, por ser incrível e criativa! Por ter me dado uma profissão, hoje trabalho com brigadeiros e isso me dá muito alegria e retorno! Que Deus continue te abençoando. Camila

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  4. Que linda a sua história!! Inspiradora! Até consigo imaginar você em toda essa narrativa! Hoje com 28 anos, mãe solo de um bebê de 9 meses estou começando meu empreendimento com o doce que mais amo.. o brigadeiro! E você é uma fonte de inspiração pra mim! =)

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  5. Parabéns !!! Mais tenho a certeza da escolha certa. Sua história é inspiradora, e me faz cada vez mais acreditar que as mudanças e escolhas valem a pena. Depois de mais de 20 anos dedicados para a minha formação de Psicóloga dentro da Área de RH. Resolvi adoçar a vida das pessoas. Estou só no início, mas meu senso de curiosidade e minha sede de aprender, estão fazendo a minha Dolce Fino caminhar para o sucesso também !! Amando fazer tudo isso também !!! Sucesso para todos nós !!! Bjs doces !!!

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