A monja e a executiva …chocólatra

Como sobreviver num ashram, na TPM, sem uma única barra de chocolate?

Em muitos vilarejos de Bali não há água encanada e as mulheres descem diariamente morros muito íngrimes e voltam ladeira acima com grandes latões de água na cabeça para abastecer a casa, pois não existe água encanada. Quando elas tropeçam no caminho pedregoso, vão ao templo meditar, porque entendem que faltou atenção no que estavam fazendo. O que dizer de um ser humano que – com água ao alcance da torneira e morando numa rua perfeitamente plana – esquece, na mesma semana, a bolsa no taxi, um bolo inteiro de chocolate no forno e um cachorro que não lhe pertence no supermercado?  E foi assim que decidi me internar num ashram, para um curso intensivo de meditação.

Não tinha a menor idéia do que estava por vir, mas pelas recomendações da ficha de inscrição, tive a certeza de que seria uma aventura e tanto: “trazer roupa de cama, repelente, lanterna e capa de chuva”. Já acampei bastante na minha vida, e a perspectiva de tomar banho frio de chinelo num banheiro coletivo não me amendrontava de jeito nenhum. Minha preocupação era mesmo com a comida, e mais ainda com a sobremesa. Fiz uma mochila franciscana: coloquei umas poucas mudas de roupa, um par de havaianas, uma necessaire diminuta, uma lanterna emprestada do Cosme (marido da Sônia, que trabalha lá em casa), roupa de cama e, ocupando quase todo o espaço, confesso: uma sacola térmica com chocolate para sobreviver pelo menos um mês na selva.

Quando me dei conta de que com esse item a mala deixava de ser franciscana para se tormar ridiculamente pequeno-burguesa, tive uma crise de consciência (apesar do atenuante de estar na TPM e sem meu namorado): como eu poderia buscar a simplicidade carregando aquele monte de chocolate na bagagem? “Por que você não leva também algumas garrafas de champanhe francês – geladas, é claro – e meia duzia latinhas de caviar sevruga para um amuse bouche espiritual na floresta?” murmurou minha consciência sem nenhuma piedade. O carro chegou para me buscar e lá estava eu, agaixada no chão, segurando com apego a sacola de chocolate que, num gesto muito sincero renúncia, eu deixaria em casa.

Me senti tão bem comigo mesma que nem lembrei dos chocolates na viagem. Chegamos no ashram quase dez da noite. Já estava preparada psicologicamente para uma noite de jejum compulsório e me dirigia para o meu dormitório guiada pela lanterna do Cosme, que ia vencendo a escuridão do caminho. Eis que, como uma aparição, surge uma monja do nada que, muito amorosamente, me convida para a ceia que ainda está servida no refeitório. Dei meia volta e fui seguindo seus passos, tentando abafar com mão que não segurava a lanterna os ruídos do meu estômago tão pouco disciplinado. Tomei uma perfumada sopa de legumes, com pão e manteiga feitos lá mesmo, e quando me dirigi ao balcão para pegar um chá, tive uma visao ainda mais reveladora: havia ali um bolo de chocolate fresquinho, transboradando uma calda generosa. Cortei uma fatia do doce e sentei embaixo de uma árvore com a uma certeza no coração, aquela já cantada pelos titãs: “o acaso vai me proteger… enquanto eu andar distraído…”

www.mariabrigadeiro.com.br

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