A ceia e o cometa Halley

Se o melhor da festa é esperar por ela, o melhor da ceia de Natal em casa era esperar pelo pavê de doce de leite que a minha mãe fazia especialmente para a data

Chega a me dar um rubor de felicidade quando alguém, na fila do pão, ou na barraca das frutas da feira de domingo, diz, lá pra setembro, que o ano praticamente acabou. A memória que chega, levemente apagada pelo tempo, é a da minha mãe na cozinha, emoldurada por azulejos com desenho de maçã, misturando na batedeira planetária um punhado de manteiga fresca, gemas, açúcar e creme de leite para o recheio da sobremesa mais esperada da ceia de natal: o pavê de doce leite.

O doce tinha ser feito de véspera, para dar tempo de umedecer as bolachas que fazem a base da torta. O ritual do preparo começava invariavelmente no dia 23 de dezembro à noitinha, logo depois do jantar. Eu comia apressadamente a sobremesa (alguma coisa entre gelatina quadriculada, pudim de leite e arroz doce) e corria para a cozinha para ajudar minha mãe com o pavê.

Como na receita não havia assadeira para untar ou claras para bater (com aquele batedor em forma de mola que demorava quase um terço da minha infância para chegar no tal ponto de neve), eu ganhava uma função mais nobre: tirar as bolachas de maisena do pacote e ir encaixando uma do lado da outra no pirex, até formar a camada inteira. Era divertido como montar Lego, com a diferença de que se eu deixasse algum vão sem bolacha, a torta ficava toda banguela na hora de cortar. Que responsabilidade a minha.

Meu pai, sentando no sofá de bermuda, lia em voz alta para minha mãe na cozinha as notícias que ele achava importantes.  Não me esqueço desta aqui: Lourdinha, ouça esta: “O cometa Halley está bem próximo da terra. Ele apareceu no céu pela primeira vez em 1910, virá agora em janeiro de 1986 e só passará novamente pela Terra em 2061”. A gente nem mais vai mais estar aqui…

Naquela noite sonhei com o cometa, muito brilhante, me levando para passear numa galáxia de bolacha e creme. Acordei cedo no dia 24, com o cheiro bom do assado da ceia, posto no forno de manhazinha em fogo baixo, envolvido em ungüentos de manteiga e temperos perfumados. Ainda de pijama, fui correndo até a geladeira conferir se o pavê estava lá. O cachorro, que sempre me lambia de bom dia, não moveu sequer um bigode, sentado na frente do forno tomando conta do peru.

A Neidinha, que trabalhava lá em casa, se ocupava do salpicão. Com o ouvido atento no programa do Eli Correia (aquele que falava “ooooooooi geeeeente!) ela batia a maionese no liquidificador enquanto a galinha e as batatas cozinhavam borbulhantes no fogão. De uma outra panela, vinha melhor aroma que um cozinheiro jamais inventou: o da cebola dourando na manteiga, para depois corar os miúdos do peru e as coloridas frutas secas da rica farofa da ceia. Que cheiro bom tinha o café da manhã na véspera do Natal!

Quando os pratos estavam todos no jeito, chegava a hora de finalizar o pavê. Com o cabelo molhado penteado para trás e um vestido longo, muito florido, minha mãe espalhava uma generosa camada de doce de leite sobre a torta e decorava com as nozes inteiras que meu pai, meio desajeitadamente, ia removendo das cascas. Se o melhor da festa é esperar por ela, o melhor da ceia era esperar pelo pavê de doce de leite. Era sempre ele que encerrava a festa, e com a doce promessa de que no ano seguinte seria tudo deliciosamente igual.

Mas a vida segue seu curso e muda o destino da gente. Há 9 anos, desde que minha mãe se foi, herdei o seu caderno de receitas e a incumbência de preparar o pavê de doce de leite no Natal. Preparei o pavê de véspera e no dia 24 de dezembro, como de costume acordei cedo e fui direto para a geladeira para ver se e o pavê estava lá. Estava. Não havia, porém, nenhum cheiro de assado no forno, voz de Eli Correia no rádio, Neidinha batendo maionese, cachorro vigiando o peru…respirei fundo e comecei a cobrir o pavê com o doce de leite. Nesse momento, começou a tocar uma música da Gal no radio:  “E todo mundo que foi embora vai voltar”. Lembrei do meu pai lendo a notícia do cometa Halley para minha mãe na cozinha e senti uma profunda confiança nos ciclos da vida, um monte de saudade e aquele rubor natalino de felicidade.

Pavê de doce de leite (receita da minha mãe)

Rende: 12 fatias

Ingredientes

1 tablete de manteiga (200 gramas) sem sal
200 gramas de açúcar
4 gemas (de ovo caipira)
350 gramas de creme de leite sem soro
2 pacotes de bolacha maisena
1 lata de leite condensado (cozida por 30 minutos na panela de pressão)
1 xícara (chá) de nozes pecã para decorar

Modo de fazer

Na batedeira, coloque a manteiga em temperatura ambiente e o açúcar, bata alguns minutos e acrescente as gemas, uma a uma. Continue batendo até obter um creme claro e homogêneo. Junte o creme de leite e bata por mais 3 minutos. Numa forma de pavê, alterne camadas de creme e bolachas. Deixe a torta na geladeira por pelo menos 12 horas, coberta com plástico filme. Coloque o doce de leite num saco de confeitar e cubra o pavê. Decore com as nozes e sirva em seguida.

www.mariabrigadeiro.com.br

Um comentário em “A ceia e o cometa Halley

  1. Que texto rico, que texto delicioso, que lembrança gostosa que me fez viajar nas minhas manhãs de Natais com a farofa cheirosa da minha mãe após fritar o bacon que a acompanhava, a maionese de frango preparada em time… Obrigada por compartilhar conosco sua doce lembrança Ju

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