Desencontros virtuais

Sempre que me dá vontade de encontrar alguém pessoalmente me contenho preparando um brigadeiro

O mundo nunca teve tanta gente e uma comunicação tão rápida, no entanto, somos sete bilhões de pessoas que pouco se falam. Repare que ninguém mais se telefona, tudo agora é por “zap”. Quer terminar um casamento de 10 anos? Zap. Demitir aquele funcionário que trabalhou uma encarnação na empresa? Zap. Dizer que alguém morreu? Zap. Imagine que esses dias me peguei dando conselhos sentimentais e receita de bolo pelo zap. Logo eu, que me orgulho de ser da resistência analógica e mantenho em casa um telefone enorme com disco, fio e tudo mais.

Não sei se foi a Danuza que disse, em um dos seus livros de etiqueta, que telefonar sem avisar é gafe das grandes, algo como aparecer em casa alheia na alta madrugada, com um daqueles carros de mensagens, berrando “eu te amo” . É por isso que antes de ligar, sempre mando um zap avisando: “fulano sou eu, vou te ligar, posso?” A regra vale para todo mundo: do de pai e mãe ao porteiro do prédio. Quando mudei, foram dois meses sem tv em casa. Cansei de ligar no celular do Damião para avisar que iam instalar a NET no meu apartamento e tocava até cair na caixa. Fui tomar satisfações na portaria e soube que só atendia numero conhecido.

Skype é outra dessas modernidades curiosas. Depois que inventaram as reuniões por vídeo, não se encontra mais ninguém pessoalmente. Bons tempos aqueles em que reunião era literalmente “reunir-se” com as pessoas. Mas não se iluda, se “reunião” não vier com a especificação “presencial”, trate de instalar o aplicativo no seu computador, fazer um make da Elke Maravilha  e providenciar sua água e seu café.

Quando a questão é pessoal, as coisas ficam ainda mais distantes. Outro dia liguei para o meu irmão  saudosa, dizendo que já fazia quatro meses que não nos víamos e ele esbravejou: “te mandei zap”. Fui desabafar com um amigo por email e ele tentou me atualizar dizendo que está fazendo terapia por Skype. Quando o terapeuta toca em alguma questão que desagrada, ele derruba a conexão e retoma algum tempo depois, quando ninguém mais lembra do assunto.

Juro que estou tentando vencer esse meu mau hábito de querer encontrar com as pessoas, saber como elas estão, telefonar na casa delas. Quando me bate aquela vontade incontrolável de fazer contato “presencial”, tento conter minhas emoções com uma série de respirações e vou para a cozinha preparar um brigadeiro para a pessoa. Transcrevo sucintamente meus sentimentos num cartão e deixo os s dois na portaria. Mando um zap avisando, e espero ansiosa um alô, que chega, sem voz, numa carinha com coração…

www.mariabrigadeiro.com.br

Um comentário em “Desencontros virtuais

  1. Ju, compartilho contigo do mesmo sentimento!
    As pessoas estão perdendo o toque, a conexão, o olho no olho e até mesmo para negócios o ‘zap’ encontrou seu espaço, triste ver que as novas gerações não terão isso como parte do crescimento. E se as pessoas soubessem o valor de uma ligação ou de um abraço de verdade (não aquele emoji) fariam muito mais!
    “… por um mundo com mais ligações e brigadeiro (rs)”

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