Tipo de criação que vem do coração

Em casa, quando a gente era pequeno, não tinha muitas coisas, mas tinha
afeto e chocolate. Morávamos numa casinha de vila, em Pinheiros, onde
minha mãe recebia as pessoas queridas com boas palavras e generosos
bombons. Digo generosos não para enfeitar a frase, mas porque ela meu pai
não comiam doces, seguiam uma tal dieta macrobiótica, que foi moda nos
1970, que restringia quase tudo que não fosse arroz integral e bala de
gelatina. Apesar da escolha individual que fizeram, eles tiveram a
sensibilidade de não negar o papel agregador do açúcar, e do chocolate,
sempre abastecendo a bomboniere da sala com uma porção de doçuras.
Meu irmão e eu esperávamos ansiosamente pelas visitas. Como era festivo
comer um bombom depois do outro, sem ninguém nos controlando.
Segundos depois estavam todos conversando animadamente, tomados de
uma alegria genuína e contagiante. Pensar que aquela felicidade repentina
era motivada por um simples pedaço de chocolate me fez querer aprender
a fazer brigadeiro, depois chocolate, e dedicar minha vida aos dois.
Só agora me dou conta da importância que aquela bomboniere teve na minha história. Ela foi um portal para um mundo doce e feliz. Acredito que
como eu, muita gente tenha memórias afetivas bem guardadas nesse
mágico pote de cristal. Elas estavam em todo lugar que valia a pena a gente
estar, reafirmando, em cada doçura que continham, que éramos gostados.
Foi essa lembrança que me inspirou a criar uma bomboniere recheada de
bombons de brigadeiro para o dia das mães. Porque também quero ser essa
mãe, a quem nunca falte afeto nem chocolate.

www.mariabrigadeiro.com.br

Cacau brasileiro é ruim. Só que não…

Com seleção extremamente cuidadosa, produtores tem colocado o país no mapa do cacau de qualidade

Há quem jure de pé junto que os melhores chocolates do mundo estão na França, na Bélgica e na Suíça. Esses países da Europa têm forte tradição em chocolate porque foram pioneiros no processamento da iguaria e se dedicaram a fazer chocolate artesanal, com cacau selecionado e manteiga de cacau pura, sem adição de conservantes e aditivos químicos. Continuar lendo “Cacau brasileiro é ruim. Só que não…”

Uma xícara de generosidade

Sempre esperei ansiosa pela festa junina da vila, quando a dona Augusta preparava o seu delicioso chocolate quente

Eu já dormia com o pijama por baixo do uniforme, sinal de que logo chegaria uma das épocas mais frias e gostosas do ano: a temporada de festa junina na vila onde eu morava. Eram 16 casas, e cada vizinho ficava incumbido de preparar um prato típico. Minha mãe fazia a pamonha, que eu detestava, mas para salvar as crianças do tédio do milho doce, havia a dona Augusta, que preparava o chocolate quente mais generoso do mundo Continuar lendo “Uma xícara de generosidade”

O amor é doce

Em tempos de amores frágeis, nada mais relevante do que ajudar a formar um par. E desconfio que o chocolate tem esse poder.

Mariana ia sempre na loja às quartas-feiras à tarde, pedia um café curto, um brigadeiro de avelã e ficava ali no balcão, escondida atrás de um grande fone de ouvido, namorando a solidão. Renato costumava aparecer às sextas, sempre no finzinho da tarde, carregando uma mochila e um guarda-chuva, alheio ao mundo e ao próprio coração.  Fone de ouvido do mesmo modelo do dela,  sentava sempre na mesma cadeira e pedia também café curto e brigadeiro de avelã.  Se não me engano foi numa segunda-feira que da cozinha, avistei os dois, cada um num canto do balcão. Enrolei às pressas dois brigadeiros de avelã e usei o pretexto do doce para apresentar o casal. E não é que vingou? Estão morando juntos há 5 anos e adotaram uma vira-lata bege que batizaram de Avelã. Continuar lendo “O amor é doce”

Nada se copia, tudo se cria

Quando criar nada mais é do que prestar atenção à poesia do que acontece à nossa volta

Fazer brigadeiro ainda era um hobby.  Acordei mais cedo naquele sábado para preparar sem pressa o doce que seria o presente de aniversário de um colega da redação. Fiz uma receita tradicional, usando uma lata de leite condensado, uma colher das de sopa de manteiga e um ingrediente que até então ninguém tinha coragem de botar na panela – uma barra de chocolate ao leite de boa qualidade. Reservei um pouco desse mesmo chocolate para passar nos brigadeiros, fiz bolinhas do mesmo tamanho e coloquei em forminhas duplas, para não abrir e ficar com cara de fim de festa. Continuar lendo “Nada se copia, tudo se cria”

Ovo no brigadeiro?

Os primeiros brigadeiros da história levavam uma ou mais gemas na receita, entenda aqui por que botaram ovo no nosso doce favorito

Você já deve ter ouvido dizer que a avó de alguém faz brigadeiro com gema de ovo e que esse seria o segredo bem guardado do doce mais amado do Brasil. Minha avó acreditava tanto nisso que botava logo três gemas em uma única receita brigadeiro – haja colesterol.  E elas não podiam ser de outro lugar, senão do seu próprio galinheiro, ou seja, genuinamente caipiras. Continuar lendo “Ovo no brigadeiro?”

Desencontros virtuais

Sempre que me dá vontade de encontrar alguém pessoalmente me contenho preparando um brigadeiro

O mundo nunca teve tanta gente e uma comunicação tão rápida, no entanto, somos sete bilhões de pessoas que pouco se falam. Repare que ninguém mais se telefona, tudo agora é por “zap”. Quer terminar um casamento de 10 anos? Zap. Demitir aquele funcionário que trabalhou uma encarnação na empresa? Zap. Dizer que alguém morreu? Zap. Imagine que esses dias me peguei dando conselhos sentimentais e receita de bolo pelo zap. Logo eu, que me orgulho de ser da resistência analógica e mantenho em casa um telefone enorme com disco, fio e tudo mais. Continuar lendo “Desencontros virtuais”