“Se a vida te der limões, faça algo que se pareça com uma limonada”

Veio a pandemia e fechamos as portas: da fábrica, das lojas, de casa. Ninguém entrava, ninguém saia. Passei 40 dias paralisada, só esperando o fim do mundo chegar. Chegava a comida, chegava o álcool gel, chegava o boleto. Mas o fim do mundo mesmo, aquele das escrituras, não chegava. Ainda não tinha amanhecido quando o meu telefone tocou. Pulei da cama assustada. O fim do mundo chegou, pensei. Era da empresa de segurança, avisando que o alarme da fábrica havia disparado. Botei um vestido preto amarrotado (nunca mais passei roupa) e uma máscara com focinheira e saí vagando pelas ruas vazias de São Paulo, com aquela sensação estranha de ser uma das únicas sobreviventes de um fim do mundo que nunca chegou. Parei o carro em frente ao portão, e o que se ouvia, além da minha respiração entrecortada, era o silêncio. Tive medo. Medo de abrir uma porta que ficou tanto tempo fechada, e que talvez não se abrisse nunca mais. O que teria atrás dela? Fosse o que fosse – o Homem do Saco, A Mosca, o Satan Goss ou o Gargamel –  eu teria que enfrentar. Respirei fundo e girei a chave.

Atrás daquela porta havia uma cena que me comoveu de lágrimas. Lágrimas que não foram de tristeza, mas de gratidão: um filhote de limoeiro que eu nem sabia que morava no nosso jardim havia dado, sozinho, seus primeiros frutos e estava carregado de limões muito amarelos. Lembrei da minha avó sob um limoeiro do interior, me dizendo a seguinte frase: minha filha, se a vida te der limões, faça algo que se pareça com uma limonada. Ela sabia que eu não gostava de limonada então mudou o texto para não perder o ditado. Sábia mulher, minha avó.

Nunca me esqueci daquela frase, mas só fui entender mesmo o que ela queria dizer aos 30 anos, quando os limões começaram a cair em queda livre na minha cabeça, um atrás do outro, azedando a coisa toda. Não sabia mais o que fazer para equilibrar os sabores da minha existência. Eu procurava a receita na Bíblia, nos textos do Osho, na bula do Prozac, no meu horóscopo diário no jornal. E num dia frio e chuvoso fui chorar alto na despensa. Olhei em volta e vi uma lata de leite condensado. Lembrei do conselho da minha avó de fazer algo parecido com uma limonada e, aos prantos, transformei aquilo em brigadeiro. Naquele dia a minha vida se transformou para sempre. Blindada com o escudo dessas memórias, abri todas as portas da fábrica e prometi para o pequeno limoeiro que a partir daquele dia eu passaria as minhas roupas e nunca mais esperaria o fim do mundo chegar.

 

 

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