Com açúcar, com afeto

“Veneno é arsênico e cianureto. Açúcar é alimento”.

Quase fui às lágrimas, quando ouvi uma nutricionista defendendo publicamente o ingrediente que nutriu gerações inteiras, incluindo a minha, e que nas últimas décadas tem sido tristemente demonizado por amargurados modismos nutricionais.

Que as minhas panelas nunca me deixem esquecer que foi com um punhado de açúcar – e não de adoçante – que minha avó, doceira familiar, transformou uma realidade amarga em concorridas compotas artesanais que tiraram meu sobrenome da pobreza.

Foi também um com punhado de açúcar que vi leite de vaca se transformar num cremoso leite condensado artesanal que serviu de base para a minha primeira receita de brigadeiro. A vida, aos  6 anos, pareceu bem mais simples e justa quando descobri que leite condensado não dava em lata e que era uma simples mistura de leite e açúcar, ingredientes que nunca faltaram na nossa despensa.

Minha mãe, que não gostava de nada doce, curou minhas recorrentes dores de garganta com um punhado de açúcar e uma receita caseira ensinada pela minha bisavó Rosa. Ela derretia o açúcar na panela, deixava apurar até formar uma calda e então juntava folhas verdes de glaco colhidas no quintal. Deixava aquilo em infusão por algumas horas, coava e tinha-se um xarope delicioso, que acabava com a tosse a tempo de eu ir brincar na rua.

Foi também com um punhado de açúcar que aprendi o segredo para bolos que davam certo. Meu pai era macrobiótico simpatizante e vivia pregando em casa os malefícios do açúcar, enquanto mascava, sem muita animação, balas de ágar-ágar adoçadas com alguma coisa tirada da beterraba. Admito que o decepcionei. Minhas teimosas tentativas de substituir o açúcar por adoçantes naturais – no esforço de tornar o bolo mais nutritivo – resultavam invariavelmente em bolos secos e solados. Depois de jogar muitos doces no lixo não reciclável  desisti de querer ser saudável. O universo, por alguma razão que desconheço, nunca me quis magra.

Foi numa manhã chuvosa de inverno que o Snoopy, meu melhor amigo de estimação, atravessou a porteira do sítio e não voltou mais. Trataram da tristeza da minha primeira perda com leite morno e – adivinhe? – sim, açúcar. Como não amar esse ingrediente que me fez virar gente?

chocolate-quente

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