Chocolates de domingo

Não foi o nosso paladar que ficou arrogante, os chocolates de infância eram de fato muito melhores

Quando eu era criança, chocolate era um luxo reservado aos domingos. Lembro que sempre me escorria uma lágrima de felicidade (como aquela que brota ao tomar refrigerante) quando mordia o primeiro pedaço. Nunca ousava mastigá-lo, deixava ele derreter bem devagarinho na boca, na esperança de que nunca acabasse. O tempo passou, me transformei numa chocólatra finalmente emancipada, mas mesmo comendo chocolate todos os dias, nunca mais consegui sentir o arrebatamento dos velhos domingos. Por um bom tempo, acreditei que meu paladar tinha ficado arrogante, insensível aos prazeres simples da infância. E no esforço de recuperar aquela humildade gustativa perdida, me submetia a uma dieta compulsória de chocolates daquela época.  Francês e suiço, só em casos extremos, como TPM aguda e fim de namoro.

Até que um dia, a curiosidade e a abstinência de bons chocolates, me levaram  a pesquisar sobre a sua qualidade. Qual foi a minha felicidade ao descobrir que meu paladar tinha razão. Na década de 1980 os chocolates não só pareciam melhores, como de fato eram. E isso, graças a uma lei que derteminava que todo chocolate deveria conter um mínimo de 32% de sólidos de cacau e manteiga de cacau pura. O açúcar tinha que ser sacarose, podendo ser substituido parcialmente por glicose pura ou lactose. Estavamos felizes com a nossa velha e boa caixinha de bombom amarela – lembra dela? – até que em 2005, uma outra resolução que vigora somente no Brasil abriu caminho para uma perda irreversível da qualidade.

A porcentagem obrigatória de sólidos de cacau despencou para mínimos 25%, e o pior: a manteiga de cacau, que é o ingrediente mais nobre e caro de uma receita de chocolate, deixou de ser obrigatória, podendo ser substituida por gorduras alternativas como a de palma, que custa dez vezes menos e altera as caracteristicas do chocolate, como textura, brilho e sabor. Por uma questão de economia, boa parte dos chocolates industriais passaram a ser feitos unicamente de pó de cacau (muitas vezes de segunda linha, com resíduos de galhos e cascas) e gordura vegetal. Ou seja, choolate deixou de ser chocolate para se transformar em uma guloseima. Resultado? Não foram só os bombons de ameixa que passaram a sobrar na caixa.

A boa notícia é que nem todos os fabricantes se aproveitaram dessa mudança. Os chocolateiros que prezam a qualidade continuam, por opção, seguindo a legislação antiga e fazendo um chocolate puro. Uma dica para diferenciar o chocolate-guloseima (industrial) do verdadeiro (artesanal) é ficar de olho na embalagem: se estiver escrito pó de cacau e gordura vegetal, fuja. Muitos ingredientes também indicam um chocolate de menor qualidade. Os chocolates de domingo, aqueles dignos de derreter na boca devagarinho, são feitos com massa de cacau, manteiga de cacau pura, açúcar, lecitina de soja (que é um emulsificante natural) e leite em pó (no caso de chocolates ao leite) . A validade é de no máximo 6 meses, pois não contém conservantes. O chocolate de verdade é feito com cacau selecionado, fino de aroma, informação que geralmente aparece em destaque no rótulo. Ah, e por serem puros e produzidos em pequena escala, acabam custando mais caro que os chocolates industriais. Agora entendo porque era um prazer tão raro, reservado aos domingos.

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